A leitura tem um papel fundamental na formação cultural e crítica das pessoas. Mas será que é possível a formação de leitores antes mesmo da alfabetização? A resposta é: sim!
Como uma construção de repertório e sentido, a leitura é imprescindível antes mesmo da “leitura convencional”, desde os primeiros anos – e a ciência explica.
Alfabetização x Formação leitora
É comum que a ideia de ler seja exclusivamente conectada ao processo de decodificação de palavras. No entanto, pesquisas recentes na área de educação e desenvolvimento infantil têm mostrado que a formação do leitor começa muito antes, ainda na primeira infância.
É importante diferenciar esses conceitos: a formação leitora não depende da escrita. A alfabetização diz respeito à aprendizagem do sistema de escrita: reconhecer letras, sílabas e palavras. Já a formação leitora envolve um processo mais amplo, que inclui o desenvolvimento do interesse, do repertório cultural e da relação da criança com a linguagem escrita.
A educadora, linguista e pesquisadora brasileira Magda Soares destaca que aprender a ler não se limita à decodificação, mas implica participar de práticas sociais de leitura e escrita. Ela define esse processo como letramento.
A primeira infância é um período decisivo!
Há comprovação de que as habilidades relacionadas à linguagem e à escrita têm sua construção, principalmente, na primeira infância. O contato com livros e narrativas amplia o vocabulário, contribui para o desenvolvimento cognitivo e fortalece habilidades socioemocionais.
Além disso, traz autonomia por meio do pensamento crítico que começa a se formar: a criança passa a fazer suas próprias escolhas e a tomar decisões.
De acordo com relatórios da Unesco, experiências de leitura na primeira infância têm impacto direto no desempenho escolar futuro e na formação de leitores ao longo da vida.
Estudos em neurociência mostram que, nos primeiros anos, o cérebro apresenta alta plasticidade, sendo especialmente sensível a estímulos linguísticos e culturais. Ou seja: quanto mais cedo a criança é exposta a práticas de leitura, maiores são as oportunidades de desenvolvimento.
E qual é o papel da creche na formação leitora?
Para muitas crianças brasileiras, não é em casa que se inicia o contato com livros e práticas de leitura, mas sim na creche. É natural que exista o “momento da leitura” para as crianças; nesse contexto, o professor atua como mediador, trazendo situações em que as narrativas ganham novos e diferentes significados.
A criança começa a criar hipóteses e a desenvolver um interesse genuíno pelas narrativas por meio das próprias experiências do dia a dia.
A formação leitora não começa pelas letras
Não são os métodos formais que criam essa experiência significativa com a leitura, mas o trabalho com a imaginação e o sentido. Existem várias maneiras de estimular essa formação: acesso livre aos livros, contação de histórias, exploração de imagens, ritmos e narrativas. Dessa maneira, a criança entende que o livro comunica ideias, emoções e histórias, conectando-se com esse universo, ao qual, pouco a pouco, passa a pertencer.
Segundo a Fundação Itaú Social, iniciativas de incentivo à leitura na primeira infância demonstram que o vínculo afetivo com os livros é um dos principais fatores na formação de leitores.
Nesse cenário, o PNLD tem papel fundamental
Conhecemos os desafios que a educação brasileira ainda enfrenta nos dias de hoje: há necessidade de maior investimento na formação contínua dos professores (mediadores), no estímulo à leitura nas creches e em um uso menos instrumental dos livros na educação. O literário se faz essencial nessa fase.
Políticas públicas como o PNLD garantem o acesso a obras de qualidade e o apoio à prática docente. Muito além de disponibilizar livros, é essencial investir em curadoria, formação e mediação. A leitura precisa ser uma experiência significativa desde os primeiros anos.
Sim, a formação leitora começa na creche
Se olharmos as evidências, elas comprovam que a formação leitora ultrapassa a alfabetização. Desde que entendida não como antecipação do aprendizado do sistema de escrita, mas como construção de experiências com a linguagem, os livros e a leitura, essa prática se mostra fundamental.
Referências usadas
- Magda Soares — Letramento: um tema em três gêneros (1998)
- UNESCO — Early Childhood Care and Education (ECCE) Reports (2015–presente, com atualizações periódicas)
- Fundação Itaú Social — Leitura na Primeira Infância (2019)
- Ministério da Educação — Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Educação Infantil (2017)
- OCDE — Starting Strong: Early Childhood Education and Care (2006–2021, série com várias edições; a mais recente é de 2021)
