Home / Mundo Digital
Mundo Digital
Entre Telas e Direitos: o cuidado com crianças e adolescentes no mundo digital
Criamos um material formativo que aborda as questões essenciais sobre o uso da internet por crianças e adolescentes, destacando a segurança, educação e direitos digitais. Baseado em casos impactantes, como o de um adolescente envolvido em um crime grave, exploramos o papel da tecnologia na vida jovem e a necessidade de supervisão adequada. Para acessar o conteúdo completo, abra as abas abaixo e explore cada tópico em detalhe.
Um caso que chocou o país
Em 2025, foi noticiado o caso de um menino de 14 anos que tirou a vida dos próprios pais. Assim como tantas outras histórias com a mesma temática, o caso gerou revolta e especulações. Em uma reportagem televisiva, exibida em horário nobre de domingo, discutiu-se o que poderia ter levado esse adolescente a cometer tal crime. O que se viu foi uma narrativa centrada no relacionamento do adolescente com a namorada de 15 anos e na influência de um jogo online, apontado como possível incitador do ato. Segundo a matéria, vídeos sobre a história do jogo teriam estimulado o adolescente a tomar tal atitude.
Repercussões como essa colocam no centro do debate o uso da internet, os jogos eletrônicos, as redes sociais e o tempo de tela. No entanto, mais do que focar apenas no crime ou condenar a tecnologia, é essencial refletir sobre como nossa relação com a internet se construiu ao longo dos anos e, principalmente, como podemos educar crianças e adolescentes para viver nesse mundo digital de forma mais segura, crítica e cidadã.
Como chegamos até aqui?
Cada geração teve tempo e ritmo diferentes de adaptação ao mundo digital. Algumas acompanharam o surgimento dos primeiros computadores pessoais, o acesso limitado à internet, ainda discada, e a popularização de celulares – principalmente os smartphones –, que possibilitou o acesso irrestrito à internet, o que a tornou onipresente. A geração hoje conhecida como millenials (nascidos entre 1981 e 1996) acompanhou o desenvolvimento da tecnologia. É uma geração que, desde sempre, lidou com as mudanças e modernizações de dispositivos e processos tecnológicos. Isso não significa que uma geração ou outra lida melhor ou pior com as ferramentas digitais disponíveis, mas revela exposições diferentes a um mesmo fenômeno.
Em 2014, a Lei 12.965, Marco Civil da Internet, entrou em vigor, estabelecendo princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. Alguns anos depois, em 2023, a LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados, complementa esse marco, estabelecendo regras específicas para o tratamento de informações, inclusive de crianças e adolescentes.
Antes da promulgação dessas legislações, o ambiente online era permeado por golpes, fraudes e venda indiscriminada de dados sensíveis. Não que hoje em dia isso não aconteça, mas agora existem normas que garantem a segurança e respaldam legalmente usuários que podem ser vítimas de crimes digitais, como golpes virtuais, disseminação de fake news e phishing¹.
¹Técnica criminosa feita por meio de spams, aparentemente enviados por instituições confiáveis, com o objetivo de instalar um programa no computador do destinatário, a fim de furtar informações importantes, como senha bancária, número de cartão de crédito etc. O termo parece ter se originado como uma ortografia alternativa da palavra fishing, em inglês, que significa “pescaria” (pescar informações).
Segurança digital: proteger NA internet, e não DA internet
No site Criança e Consumo, há uma aba chamada “Ambiente digital”, e a primeira frase que aparece é “Crianças precisam ser protegidas na internet, não da internet”. Essa frase resume como a educação digital e a cidadania digital precisam ser aprendidas e exercidas em todas as idades. Cabe aos educadores compreender como, daqui para frente, será possível ensinar e letrar crianças e adolescentes a se protegerem em ambientes digitais, bem como aproveitá-los em sua totalidade e potência.
É um direito, previsto em lei, que crianças e adolescentes tenham acesso a tecnologias e, consequentemente, ao mundo digital. No entanto, ainda é um desafio garantir que essas ferramentas façam parte da vida de crianças e adolescentes de maneira que o impacto que elas causam não seja, necessariamente, negativo.
Há alguns anos, pessoas que produzem conteúdo sobre maternidade discutem sobre a importância de mediar o uso de telas e proteger crianças no ambiente digital. Não faz muito tempo que se discute com mais responsabilidade sobre expor crianças em vídeos e fotos veiculados nas redes sociais. Hoje, se pensa muito mais sobre o direito de crianças e adolescentes de não terem suas imagens veiculadas na internet. O que parece ser algo de pouca importância, na verdade, é um grande aliado à proteção de crianças e adolescentes na internet.
De acordo com Henrietta H. Fore², em seu artigo From Privacy to Power: Children’s Rights in a Digital Age, traduzido pelo Instituto Alana:
A privacidade também é um direito humano fundamental para todas as pessoas, inclusive as crianças. Agora, completando 30 anos, a Convenção sobre os Direitos da Criança (UNCRC – United Nations Convention on the Rights of the Child) reconhece que as crianças têm soberania sobre suas informações pessoais e devem ser protegidas de ‘interferência ilegal em suas correspondências’. Em outras palavras, as crianças têm o direito de controlar como informações sobre elas são coletadas, usadas e compartilhadas. (INSTITUTO ALANA, 2021, p. 185).
Práticas como orientar crianças e adolescentes a não registrarem imagens com uniforme ou dentro de escolas também são formas relevantes de garantir sua segurança.
²Líder global em desenvolvimento infantil, foi Diretora Executiva do UNICEF (2018-2022) e exerceu cargos no governo dos EUA relacionados à saúde, educação e direitos de crianças e adolescentes.
Confiabilidade: fake news, golpes e proteção de dados
Outra grande questão ainda delicada quando se fala do uso de redes sociais é a faixa etária mínima para cada uma. Por mais que a maioria das plataformas digitais – como Instagram, Facebook, Youtube e TikTok – tenham a idade mínima de 13 anos para o acesso, seu monitoramento ainda é frágil e/ou deficitário, seja por parte das próprias plataformas, seja pelas famílias. Ou seja, na prática, existe um número elevado de crianças e adolescentes, abaixo da idade mínima, usando redes sociais – muitas vezes sem monitoramento de seus
responsáveis.
Mas como é possível monitorar e/ou evitar, especialmente nos dias atuais, que crianças e adolescentes estejam em redes sociais?
Enquanto exigimos que os governos e a indústria tomem providências, também pedimos que pais e guardiões assumam um papel ativo para orientar as crianças sobre o uso responsável das ferramentas on-line; para que entendam os riscos e tomem medidas para garantir a proteção dos seus dados. (INSTITUTO ALANA, 2021, p. 188)
A grande questão é que nem todas as famílias dispõem de tempo, recursos e conhecimento para monitorar de perto o uso de telas por adolescentes e crianças, seja por não saberem como fazer, seja por não terem tempo para isso. A verdade é que, por mais que tenhamos consciência sobre riscos e violências possíveis, ainda faltam ações efetivas para garantir essa proteção de forma equilibrada, visto que simplesmente proibir o acesso não resolve o problema e pode até afastar oportunidades educativas que a internet pode oferecer.
Saúde mental: quando o excesso se torna risco
As relações entre as pessoas – virtuais ou presenciais – eram, antes da pandemia da covid-19, muito mais espaçadas e delimitadas. Presencialmente, elas se encontravam, conviviam por algumas horas e estabeleciam outro tipo de relação no virtual. No entanto, quando a pandemia se instaurou no mundo, as conexões digitais passaram por um processo de estreitamento e intensificação sem precedentes. Mesmo antes de 2019, o uso de redes sociais já estava estabelecido no cotidiano. O confinamento, porém, colocou todas as interações no ambiente virtual, até mesmo aquelas que antes estavam resguardadas apenas ao presencial, como as relações de trabalho.
Além das mudanças nas dinâmicas de convivência, a pandemia foi um dos principais fatores para o aumento do tempo de tela. De repente, da noite para o dia, milhões de pessoas precisaram se adaptar ao uso constante de tecnologias, inclusive dentro de um ambiente que, até então, fazia parte da esfera privada: seus próprios lares. Educadores passaram a expor suas casas – mesmo sem querer – e estudantes também. O que antes estava resguardado à intimidade, agora estava no âmbito público. Consequentemente, os casos de insegurança digital e de vulnerabilidade relacionados a essa exposição exacerbada começaram a aumentar.
Voltando ao caso do adolescente de 14 anos – que abre este texto –, evidencia-se ainda mais que a relação entre mundo digital, violência e saúde mental não pode ser analisada isoladamente. A falta de acompanhamento e o uso excessivo de telas sem que haja orientação podem potencializar problemas como ansiedade, depressão e até dependência digital. É importante, portanto, que responsáveis, educadores e pessoas adultas que convivem com crianças e adolescentes tenham conversas francas, construtivas e positivas sobre o uso responsável de plataformas digitais.
Para onde vamos: educação digital como caminho
Ao longo da história, novas tecnologias substituíram antigas, quase sempre acompanhadas de receio ou demonização inicial. É fundamental reconhecer que, a cada atualização tecnológica – seja relacionada a dispositivos, seja a qualquer outra inovação –, surge a necessidade de compreender como essas transformações podem impactar a vida cotidiana. Manter-se em oposição permanente a ferramentas já consolidadas tende a ser contraproducente, inclusive quando se trata de internet e tecnologias digitais. O que existe, existe – e está em constante evolução.
O uso de tecnologias, plataformas digitais e redes sociais faz parte da rotina de grande parcela da população há mais de duas décadas. Ainda que, no início, o impacto e o alcance dessas redes estivessem limitados pela infraestrutura de internet da época, já se discutia, mesmo assim, como as relações sociais seriam alteradas por esses meios.
No campo educacional, quando se trata da exposição de crianças e adolescentes às telas – e, consequentemente, aos riscos associados –, o principal desafio é discutir e estruturar ações práticas capazes de minimizar possíveis violências e vulnerabilidades no ambiente digital. Para isso, é essencial promover diálogos abertos sobre o uso de fontes confiáveis, a importância de questionar conteúdos e a necessidade de proteger dados pessoais sensíveis, como nome completo, instituição de ensino e número de telefone.
Assim, mais do que restringir ou proibir o acesso, é fundamental investir em educação digital que auxilie crianças e adolescentes a reconhecer riscos, proteger informações pessoais e desenvolver pensamento crítico em relação aos conteúdos que circulam online. Ainda, é importante que responsáveis, educadores e pessoas adultas que convivem com crianças e adolescentes, tenham conversas francas, construtivas e positivas sobre o uso responsável de plataformas digitais.
Referências
5RIGHTS FOUNDATION. Site institucional. Disponível em: https://5rightsfoundation.com/. Acesso em: 17 jul. 2025.
BRASIL. Senado Federal. Marco Civil da Internet completa dez anos ante desafios sobre redes sociais e IA. Agência Senado, 26 abr. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/04/26/marco-civil-da-internet-completa-dez-anos-ante-desafios-sobre-redes-sociais-e-ia. Acesso em: 17 jul. 2025.
CNN BRASIL. Adolescente que planejou a morte dos pais: o que sabemos sobre o caso. 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/adolescente-que-planejou-a-morte-dos-pais-o-que-sabemos-sobre-o-caso/. Acesso em: 17 jul. 2025.
CRIANÇA E CONSUMO. O futuro da infância no mundo digital: ensaios sobre liberdade, segurança e privacidade. São Paulo: Instituto Alana, 2021. Disponível em: https://criancaeconsumo.org.br/wp-content/uploads/2021/11/o-futuro-da-infancia-no-mundo-digital-ensaios-sobre-liberdade-seguranca-e-privacidade.pdf. Acesso em: 17 jul. 2025.
CRIANÇA E CONSUMO. Site institucional. Disponível em: https://criancaeconsumo.org.br/. Acesso em: 17 jul. 2025.
G1. O ASSUNTO. Internet e saúde mental de adolescentes: quais são os sinais de alerta e como saber a hora de buscar ajuda. G1, 24 abr. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2023/04/24/internet-e-saude-mental-de-adolescentes-quais-sao-os-sinais-de-alerta-e-como-saber-a-hora-de-buscar-ajuda.ghtml. Acesso em: 17 jul. 2025.
INSTITUTO ALANA. Site institucional. Disponível em: https://alana.org.br/. Acesso em: 17 jul. 2025.
MICHAELIS. Phishing. Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=phishing. Acesso em: 17 jul. 2025.
Off the grid
Esta sequência didática, destinada ao 1º ano do Ensino Médio, explora o conceito e estilo de vida “Off the Grid” em um contexto digital. Por meio de discussões guiadas e pesquisa online, os estudantes investigam o significado da expressão e os desafios de viver de forma sustentável e autossuficiente. A proposta inclui a socialização dos resultados das pesquisas, análise das necessidades básicas e rotina diária desse estilo de vida, e debates sobre seus desafios e benefícios. O objetivo é estimular o pensamento crítico e a valorização das práticas sustentáveis, promovendo a consciência sobre o impacto do digital no cotidiano.
Desvendando notícias e combatendo a desinformação
Nesta sequência didática para o 2º ano do Ensino Médio, o foco é combater a desinformação através de habilidades críticas. Ao longo de seis aulas, os estudantes aprendem a avaliar informações noticiadas e a elaborar textos convincentes, desenvolvendo um olhar analítico sobre o conteúdo consumido. A atividade abrange análise de termos e palavras, identificação de informações sensacionalistas e a compreensão dos impactos das fake news. Alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), fomenta o letramento crítico, a responsabilidade social e prepara os alunos para um envolvimento consciente na sociedade informativa atual.
Entre views, likes e emoções
Nesta sequência didática para o Ensino Médio, os estudantes são convidados a refletir sobre a relação entre redes sociais, saúde mental e autoestima. Ao longo de seis aulas, a proposta promove discussões, pesquisas, produção de cartazes e apresentações para analisar como padrões digitais, exposição e comparação afetam emoções e bem-estar. O objetivo é desenvolver senso crítico, empatia e estratégias para um uso mais saudável e responsável das mídias digitais.