Representação e representatividade: leitura crítica da imagem do indígena (do Romantismo à contemporaneidade)
Quantidade de aulas: 7
Organização da sequência:
- Parte 1 – Dois olhares sobre os indígenas na Literatura
- Parte 2 – Indígenas na contemporaneidade
Pergunta norteadora | Como o indígena foi representado na literatura brasileira ao longo do tempo? |
Tema | Representação literária dos indígenas |
Público-alvo | Estudantes do 2º ano e do 3º ano do Ensino Médio. |
Objetivos de aprendizagem | ● Estudar obras da tradição literária brasileira. ● Discutir criticamente como o indígena foi representado em movimentos literários como Romantismo e Modernismo. ● Entender a importância da representatividade indígena na arte contemporânea. |
Objetos do conhecimento | ● Representação de indígenas na literatura brasileira. ● Representatividade indígena na arte contemporânea. ● Romantismo brasileiro. ● Modernismo brasileiro. ● Arte brasileira contemporânea. |
BNCC (EM) – Linguagens e suas Tecnologias | |
Competências | 1, 2, 3, 6 |
Habilidades | (EM13LP01); (EM13LP03); (EM13LP46); (EM13LP48); (EM13LP50); (EM13LP53). |
DOIS OLHARES SOBRE OS INDÍGENAS NA LITERATURA
Quantidade de aulas: 4
Referência: Entre Saberes Língua Portuguesa 2º ano – Unidade 2 Romantismo, seção 2, p.103-105; Unidade 4 Parnasianismo, Simbolismo e a literatura do início do século XX, seção 1, p.209.
Material necessário
- Cópias impressas ou digitais do capítulo 2 de Iracema, de José de Alencar.
- Cópias impressas ou digitais do capítulo 1 de Macunaíma, de Mário de Andrade.
- Dispositivos eletrônicos com acesso à internet.
Preparação
- Reservar laboratório de informática ou solicitar aos estudantes que tragam seus dispositivos eletrônicos para a aula (celular ou tablet).
- Revisar como indígenas foram retratados na literatura brasileira.
- Estabelecer como os estudantes terão acesso aos textos selecionados (cópia impressa e/ou digital).
- Selecionar resumos em texto e vídeo da obra Macunaíma, de Mário de Andrade.
Livros/sites sugeridos
- Domínio Público
- Iracema, de José de Alencar
- Macunaíma, de Mário de Andrade
- Mário de Andrade: reinventando o Brasil
Organização da sala
- Aula 1: em círculo ou em fila indiana.
- Aula 2: em grupos.
- Aula 3: em círculo e, em seguida, em trios.
- Aula 4: em trios.
Sequência didática
Aula 1
- Inicie com a pergunta norteadora: “Como o indígena foi representado na literatura brasileira ao longo do tempo?”.
- Registre as respostas na lousa ou em uma folha de cartolina que seja posteriormente afixada na sala de aula ou mesmo em um arquivo digital.
- Explique como a literatura teve um papel determinante na construção do indígena como o outro, o diferente, aquele que não teve voz e foi retratado pelo europeu a partir de seu ponto de vista.
- Faça um breve apanhado histórico de como o indígena foi retratado:
- no Romantismo (século XIX);
- no Modernismo (século XX), em um processo de desconstrução e problematização; e,
- na contemporaneidade, com os próprios indígenas deixando de ser tema para se tornarem autores, posicionando-se sobre sua cultura e sua história.
- Apresente e, se possível, entregue cópias dos trechos literários que serão estudados nas aulas seguintes, para que os estudantes façam leitura prévia para a próxima aula.
- Explique que, ao longo das próximas aulas, os estudantes farão uma pesquisa sobre obras de autores indígenas para que possam produzir apreciações sobre elas e sobre obras contemporâneas de autores indígenas.
Aula 2
- Apresente aos estudantes o portal Domínio Público, explicando brevemente suas funcionalidades e indicando que lá estão as obras que podem ser acessadas livremente, sem custo.
- Peça a eles que acessem o portal Domínio Público e façam uma busca pela obra Iracema, de José de Alencar.
- Reúna os estudantes em pequenos grupos para que possam conduzir a leitura do capítulo 2 da obra, seja pelas cópias entregues na aula anterior, seja pela versão on-line a que estão acessando.
- Aproveite a oportunidade para ajuda-los a desenvolver a inferência de leitura, com estratégias como: em vez de responder diretamente a perguntas sobre o texto, conduza a discussão de modo a que seja possível inferir as respostas por meio do texto. Por exemplo: não é preciso saber o que é “jati” para entender pelo texto que se trata de algo doce. Também, a chamada “religião de sua mãe”, indicada no texto, é possível de ser deduzida como sendo a cristã ao se considerar que se trata de um homem branco, um colonizador português.
- Circule pelos grupos e atue diretamente em outros trechos, que podem precisar de mais auxílio para o entendimento, esclarecendo trechos dele para os estudantes.
- Antes da finalização desta aula, questione os estudantes sobre marcas importantes do texto, verificando se aparecem características importantes:
- De que maneira é feita a representação da indígena? (Idealização da figura de Iracema, toda ela associada à natureza.)
- Como é representado o encontro entre colonizador e indígena? (Supressão da violência do encontro colonizador/indígena, já que, em vez de se enfrentarem, Martim e Iracema quebram, juntos, a flecha da paz.)
- Como são representados os demais indígenas? (Presença de indígenas caracterizados por sua beleza e por sua bravura, por valores positivos na perspectiva ocidental.)
- Encerre a aula explicando aos estudantes que, no processo de colonização, indígenas eram vistos pelos colonizadores como violentos, selvagens e preguiçosos, sendo o processo de aculturação considerado uma necessidade para a conquista da civilização. O discurso produzido sobre os indígenas era feito pelos colonizadores, ou seja, não havia vozes indígenas, durante o processo colonial, para se contrapor ao tema nas mesmas bases (de forma escrita).
Aula 3
- Peça aos estudantes para terem em mãos a cópia impressa entregue na aula 1 ou a versão online do primeiro capítulo do livro Macunaíma, de Mário de Andrade. A leitura será apenas dos três primeiros parágrafos.
- Conduza a leitura do texto em uma dinâmica diferente da realizada na aula anterior. Por se tratar de um trecho mais curto, sugere-se que uma pessoa realize a leitura.
- Proponha aos estudantes que se reúnam em trios e analisem comparativamente a obra lida na aula anterior e este trecho, considerando para isso os itens a seguir:
- Espaço onde se passam as obras – ambas se passam na mata. No caso de Iracema, mata do Nordeste brasileiro, no estado do Ceará; no caso de Macunaíma, mata do Norte do país, no estado de Roraima, o que é possível inferir por meio da referência ao rio Uraricoera.
- Modo como os indígenas são retratados em cada obra – em Iracema, o indígena é visto de forma idealizada, age de modo pacífico e seguindo os valores que o escritor, com base no viés ocidental, do colonizador português, enxerga a cultura indígena, subordinando-a à cultura europeia; em Macunaíma, com base em um viés subversivo, que subverte a idealização do indígena e satiriza a visão romântica. É o caso, por exemplo, do fato de Macunaíma ser retratado como alguém preguiçoso e com sexualidade incontrolável, pois esta era a visão preponderante sobre os indígenas entre os séculos XVI e XIX.
- Linguagem – ambas as obras buscam utilizar um vocabulário em que fiquem evidenciadas as culturas nativas, com referência a frutas, árvores, danças etc.
- Ações dos indígenas nos trechos lidos – enquanto em Iracema, a indígena reage ao invasor e, posteriormente, celebra com ele um pacto de paz, Macunaíma encontra-se em sua tribo, convivendo com seu povo e entregando-se mais ao ócio (preguiça para falar, para andar) e à sua cultura originária, aprendendo as danças de seu povo.
- Peça aos estudantes que socializem seus registros com toda a turma e facilite um registro coletivo na lousa ou em outro suporte que tenha sido decidido pelo grupo.
Aula 4
- Peça aos estudantes para, em trios, pesquisarem resumos escritos e/ou em vídeos da obra Macunaíma, de Mário de Andrade. Como se trata de uma rapsódia, ou seja, uma obra formada a partir de textos, lendas, mitos anteriores e remixada para formar a história de Macunaíma, conforme a imaginou Mário de Andrade, é interessante que os estudantes possam entender o todo para, depois, aprofundar sua leitura.
- Depois que todos tiverem uma ideia geral da obra, é hora de ampliar a leitura dela. Para isso, peça a eles que retomem o arquivo em pdf usado para leitura do trecho inicial e, usando o recurso de localização de palavras no arquivo, busquem e leiam trechos diversos da obra, com base na lista a seguir ou a partir de seus interesses derivados de uma busca inicial:
- Muiraquitã – a pedra com que Ci, a mãe do mato, presenteou Macunaíma após o nascimento do filho deles; é, também, na obra, uma representação da identidade do povo indígena.
- Carta pras Icamiabas – trata-se de uma paródia da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal informando o achamento do Brasil. Enquanto na carta de Caminha o português narra sobre a terra e o povo recém-encontrado, na carta às Icamiabas um indígena, Macunaíma, conta ao seu povo sobre a cidade de São Paulo “descoberta” por ele.
- Truque – na obra, a ideia de metamorfose, de transformação, é trabalhada não apenas em relação à cultura indígena, mas também à cultura de matriz europeia, mais especificamente à paulista. Na cena descrita no capítulo V, “Piaimã”, Macunaíma e seus irmãos inventam o jogo de truco.
- Boiúna Luna – no capítulo IV, “Boiúna Luna”, é narrada uma lenda indígena que explicaria a Lua como sendo a cara redonda de um boi. O aspecto mítico da obra de Mário de Andrade, que reúne várias lendas e mitos para criar sua obra, fica explicitada aí.
- Igarapé Tietê – Macunaíma e seus irmãos chegam a São Paulo navegando pelo rio Tietê. Trata-se, nesse caso, de uma subversão do achamento das terras brasileiras. Aqui é o indígena que descobre a “civilização”, representada pela cidade industrial que a capital paulista era naquele momento.
- Ao longo de sua leitura, os estudantes devem anotar ideias, palavras-chave e comentários em que se posicionem sobre o que está sendo narrado.
- Encerre a aula deixando questões para serem retomadas na aula seguinte: Que imagem do indígena essa obra busca construir? É a mesma presente em Iracema? Por quê?
INDÍGENAS NA CONTEMPORANEIDADE
Quantidade de aulas: 3
Referência: Entre Saberes Língua Portuguesa 3º ano – Unidade 3 Cânones emergentes, seção 2, p.160-167.
Material necessário
- Equipamento de projeção de vídeo.
Preparação
- Reservar laboratório de informática ou solicitar aos estudantes que tragam seus dispositivos eletrônicos para a aula (celular ou tablet).
- Conhecer algumas adaptações de Macunaíma para outras artes.
- Selecionar obras contemporâneas de artistas indígenas.
Livros/sites sugeridos
- Texto e imagens “Makunaima, o meu avô em mim”, de Jaider Esbell
- Vídeo “Mil faces de Makunaima. Mishta & Manatit a partir de Jaider Esbell”
Organização da sala
- Aula 1: em círculo e, em seguida, em grupos.
- Aula 2: em círculo ou em fila indiana.
- Aula 3: em fila indiana, em duplas e em círculo.
Sequência didática
Aula 1
- Inicie a aula retomando as questões propostas na aula anterior: Que imagem do indígena essa obra busca construir? É a mesma presente em Iracema? Por quê?
- Explique que Mário de Andrade empreendeu a desconstrução de estereótipos contra os indígenas de modo inovador, ao reforçá-los de modo risível.
- Pergunte a eles se conhecem algum movimento de crítica a estereótipos e preconceitos que utilize o próprio estereótipo para subvertê-lo, como algumas torcidas de futebol que incorporam o apelido pejorativo e o ressignificam. Isso aconteceu, por exemplo, com a torcida do time masculino de futebol Corinthians, que era vítima de preconceito devido à origem pobre de muitos de seus torcedores e hoje, em dias de jogos do time, afirma que é “dia de festa na favela”.
- Chame a atenção dos estudantes para o fato de que esse movimento visa a não aceitar passivamente o rótulo que lhe é dado, mas a questionar, por meio da ironia, o estereótipo construído. O mesmo faz Mário de Andrade, ao criar um Macunaíma que corresponderia aos ideais estereotipados do europeu e seria mentiroso, preguiçoso e sexualmente luxurioso. A ideia do autor, ao reforçar tais ideais era subverter seu sentido e desconstrui-los por meio da crítica.
- Proponha aos estudantes uma pesquisa individual sobre adaptações e releituras da obra para outras artes, como cinema, quadrinhos etc.
- Em grupos, peça a eles que compartilhem entre si a pesquisa, escolham uma das adaptações em cada grupo e registrem ideias sobre elas para, posteriormente, escreverem um comentário avaliativo.
- Finalize a aula indicando que no próximo encontro será o momento de pesquisar/estudar a produção de Jaider Esbell, importante autor indígena contemporâneo.
Aula 2
- Nesta aula, os estudantes entram em contato com outras ideias acerca do mito de Makunaima, a partir do qual Mário de Andrade escreveu sua obra Macunaíma. Para isso, comece explicando que em 2022, na comemoração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna, muito se discutiu sobre representação, representatividade e apropriação cultural, na análise do Macunaíma de Mário de Andrade.
- Explique que a obra de Mário é vista e revista hoje por múltiplos olhares e críticas. Entre elas, uma é especialmente importante: a que o artista indígena Jaider Esbell (1979-2021) propõe em um texto e em uma sequência de telas que abordam Makunaima pela perspectiva de seu povo: os macuxi do Norte do Brasil. Para que os estudantes conheçam mais sobre a obra de Esbell, peça a eles que acessem o site com o texto do artista e apreciem as iluminuras.
- Reproduza o vídeo “Mil faces de Makunaima. Mishta & Manatit a partir de Jaider Esbell”, promovendo um debate posterior a respeito.
- Incentive os estudantes a pesquisarem outras produções artísticas indígenas contemporâneas, como rap, literatura, artes visuais e produções cinematográficas.
Aula 3
- Retome as obras de Jaider Esbell e convide os estudantes a compartilharem outras obras de artistas indígenas que conheçam ou tenham pesquisado. Compartilhe algumas também.
- Comente sobre a diferença entre representar indígenas e a representatividade conquistada pelos povos indígenas contemporaneamente.
- Em duplas, solicite que retomem as anotações que fizeram nas aulas anteriores e escrevam apreciações sobre a perspectiva do indígena em obras como Iracema, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade, e comparem-nas à perspectiva presente nas obras produzidas por um(a) artista indígena contemporâneo. É importante que, nesse comentário, mostrem como as produções indígenas são importantes como afirmação do lugar de pertencimento de autores indígenas para garantir sua representatividade cultural.
- Finalize a aula e a sequência didática com a apresentação dos comentários apreciativos dos estudantes para toda a turma. Se julgar pertinente, podem ser feitas apresentações para a comunidade escolar, com a gravação dos comentários no formato de podcast, que podem ser veiculados nas redes sociais da escola ou mesmo dos estudantes.
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